Olá! Esta é a primeira edição da iaRQ News, a mais completa newsletter brasileira dedicada à Inteligência Artificial aplicada à Arquitetura, Engenharia e Construção.
Durante algum tempo, falar de IA na arquitetura significava quase sempre falar de imagens: referências visuais, estudos conceituais e renders gerados em poucos segundos.
Essa fase não terminou. Mas a transformação mais importante agora está acontecendo em outro lugar.
A Inteligência Artificial começa a trabalhar com geometria editável, modelos BIM, documentos técnicos, normas, RFIs, dados de projeto e informações capturadas diretamente no canteiro de obras.
Em outras palavras: está deixando de atuar apenas na representação do projeto e começando a entrar no próprio processo de projetar, coordenar e construir.
Esse é o movimento que conecta as principais notícias desta primeira edição.
Resumo desta Newsletter em 30 segundos
- Uma nova ferramenta transforma croquis, imagens e comandos em geometria 3D paramétrica e editável.
- O Revizto abriu seus dados para que ChatGPT, Claude e outros assistentes possam consultar projetos por meio do MCP.
- Agentes de IA já conseguem pesquisar documentos e preparar respostas para RFIs .
- Plataformas especializadas começam a revisar desenhos, especificações e incompatibilidades técnicas.
- No Brasil, o CAU/BR colocou autoria, responsabilidade e proteção de dados no centro do debate.
- Procore e Arcadis estão investindo pesado em dados de obra e IA especializada para AEC (Arquitetura, Engenharia e Construção).
- No dia 15 de setembro, às 20h (horário de Brasília), eu vou dar uma aula ao vivo, com cerca de duas horas de duração, sobre o uso de Inteligência Artificial em Arquitetura. [PARTICIPAR DA AULA]
1. Plamo quer transformar “vibe coding” em “vibe modelling”
A startup Illoca lançou a versão beta do Plamo, um ambiente de modelagem 3D que recebe croquis, desenhos, imagens de referência e instruções em linguagem natural para gerar geometria paramétrica editável.
Diferentemente de uma Inteligência Artificial que produz apenas uma imagem, o Plamo promete gerar modelos com geometria BREP e parâmetros que podem continuar sendo modificados e exportados para outros fluxos de CAD.
A empresa foi fundada por profissionais com passagem pelo Autodesk AI Lab, Google DeepMind e Tesla.
Por que isso importa?
Até agora, havia uma lacuna entre a imagem criada pela IA e o modelo técnico que realmente pode ser desenvolvido. Um conceito visual poderia surgir em segundos, mas precisava ser reconstruído manualmente no software de projeto.
O Plamo aponta para um fluxo diferente:
intenção → modelo editável → refinamento → documentação
Se essa abordagem amadurecer, o arquiteto poderá trabalhar mais no nível da intenção e das decisões, enquanto agentes executam parte da modelagem repetitiva.
O que observar
O produto ainda está em beta. As capacidades divulgadas vêm principalmente da própria empresa e precisam ser testadas em projetos reais, especialmente em geometrias complexas, alterações sucessivas e interoperabilidade com os softwares utilizados no escritório.
Grau de evidência: lançamento em beta; promessa tecnicamente relevante, ainda dependente de validação independente.
Conheça a cobertura do Plamo na AEC Magazine
2. Revizto conecta os dados do projeto a assistentes de IA
O Revizto lançou uma nova camada de integração composta por portal para desenvolvedores, API de modelos e propriedades e um servidor baseado no Model Context Protocol — MCP.
Na prática, isso permite conectar assistentes como ChatGPT, Claude e Microsoft Copilot aos dados autorizados de um projeto.
Em vez de exportar planilhas e procurar informações manualmente, um profissional poderá fazer perguntas como:
- Quais interferências permanecem sem solução?
- Quais problemas estão concentrados em determinado pavimento?
- Quais itens possuem documentação pendente?
- Quais são os principais riscos de coordenação deste projeto?
A documentação oficial também informa que o sistema respeita as permissões do usuário conectado e recomenda manter ações de escrita sujeitas à revisão humana.
Por que isso importa?
O valor não está apenas em “conversar com o BIM”. O avanço está em conectar a inteligência artificial a informações estruturadas, atualizadas e autorizadas.
Um modelo de linguagem generalista sabe muito sobre construção, mas não conhece automaticamente o histórico, os documentos e as decisões de uma obra específica. Quando recebe acesso controlado a esses dados, pode se transformar em uma camada de consulta e análise do projeto.
Esse movimento pode reduzir a dependência do profissional que hoje atua como uma espécie de “API humana”: alguém que abre o software, encontra a informação, exporta, organiza e encaminha para outra pessoa.
Grau de evidência: funcionalidade disponível e documentada oficialmente; resultados ainda dependem da qualidade dos dados e da configuração de permissões.
Veja a documentação oficial da integração do Revizto
3. PlanRadar lança agentes para responder RFIs e executar tarefas
A PlanRadar apresentou agentes de IA integrados à sua plataforma de documentação e gestão de projetos.
Um dos exemplos é o Response Agent: ao receber uma RFI, o agente pesquisa os documentos do projeto e prepara uma resposta indicando a fonte utilizada.
A empresa afirma que o processo pode reduzir de horas para minutos o tempo necessário para produzir uma primeira resposta. Também será possível criar agentes personalizados descrevendo o fluxo desejado em linguagem natural.
As ações ficam registradas e associadas ao agente que as executou. Porém, depois de ativado, o agente pode realizar determinadas tarefas automaticamente, sem aguardar uma nova aprovação a cada execução.
Por que isso importa?
Estamos passando do assistente que responde perguntas para o agente que acompanha um fluxo e toma uma ação.
Em uma obra, isso pode significar:
- identificar solicitações paradas;
- procurar informações em documentos;
- preparar respostas preliminares;
- encaminhar tarefas;
- cobrar responsáveis;
- registrar o que foi executado.
O ponto crítico será definir claramente o que pode ser automatizado e o que precisa continuar dependendo de julgamento técnico.
Uma resposta mais rápida não significa necessariamente uma resposta correta — principalmente quando envolve alteração de projeto, custo, prazo ou responsabilidade profissional.
Grau de evidência: lançamento oficial com cobertura especializada; ganhos de tempo informados pelo fabricante ainda precisam de comprovação independente.
Leia sobre os agentes da PlanRadar
4. A IA começa a revisar desenhos, especificações e códigos
A plataforma Ichi utiliza Inteligência Artificial para analisar conjuntos de desenhos, especificações e documentos de construção.
Segundo a análise publicada pelo Architosh, o sistema procura informações ausentes, divergências entre pranchas, incompatibilidades entre documentos, falhas de escopo e possíveis conflitos internos.
Também trabalha com códigos de construção licenciados pelo ICC e suas alterações locais, além de processos relacionados a RFIs, submittals e administração da construção.
Por que isso importa?
Uma inconsistência encontrada no escritório costuma ser barata. A mesma inconsistência descoberta depois da contratação, fabricação ou execução pode gerar retrabalho, aditivos e conflitos.
É por isso que a revisão técnica pode se tornar uma das aplicações mais valiosas da IA em AEC.
O objetivo não deve ser substituir a conferência profissional, mas realizar uma primeira varredura ampla e repetitiva antes da revisão humana.
Um fluxo possível seria:
- a IA analisa o conjunto completo;
- indica possíveis conflitos e suas fontes;
- o profissional verifica cada apontamento;
- somente os problemas confirmados entram na revisão.
Para o mercado brasileiro, ainda existe uma limitação importante: códigos, normas e exigências municipais variam, e uma ferramenta preparada para a realidade norte-americana não pode ser utilizada automaticamente como verificador de conformidade no Brasil.
Grau de evidência: produto disponível, analisado por veículo especializado; aplicabilidade normativa ainda depende da jurisdição e de validação profissional.
Conheça a análise técnica do Ichi no Architosh
5. CAU/BR coloca autoria, responsabilidade e dados no centro do debate
Fui convidado pelo CAU para conduzir o painel de abertura sobre Inteligência Artificial na Arquitetura durante o evento Rumos da Arquitetura e Urbanismo, dia 20/08/2026, em Porto Alegre.

Falamos sobre ferramentas emergentes, aplicações da IA nos processos criativos e na gestão dos escritórios, além dos dilemas éticos que acompanham essa transformação.
Uma das ideias centrais da palestra foi que o diferencial não está simplesmente em saber escrever prompts, mas em desenvolver um método: aprender a fazer melhores perguntas, identificar pontos críticos e usar a IA para extrair mais valor das informações que já temos.
O fato de esse tema abrir a programação mostra que a inteligência artificial deixou de ser uma conversa periférica e passou a integrar oficialmente o debate sobre o futuro da profissão.
Levo essa discussão para empresas, entidades e eventos do setor AEC, sempre conectando tendências, aplicações práticas e transformação profissional.
Minha recomendação é que os escritórios comecem a criar uma política interna de IA, ainda que simples, definindo:
- quais ferramentas são autorizadas;
- quais dados podem ser inseridos;
- o que exige revisão humana;
- como registrar o uso da tecnologia;
- quando o cliente deve ser informado.
Leia a reportagem publicada pelo CAU/BR
Grau de evidência: debate institucional brasileiro, com efeitos práticos ainda em construção.
O dinheiro está indo para onde?
Duas movimentações ajudam a entender a direção do mercado.
Procore anuncia compra da DroneDeploy por US$ 845 milhões
A Procore firmou um acordo para adquirir a DroneDeploy, plataforma de captura da realidade por drones, câmeras e robôs, por aproximadamente US$ 845 milhões em dinheiro.
A operação ainda depende das condições e aprovações previstas para sua conclusão.
A leitura estratégica é clara: a IA para construção precisa enxergar o que está acontecendo fisicamente no canteiro. Imagens recorrentes da obra podem alimentar sistemas capazes de comparar execução e projeto, acompanhar avanço, identificar riscos e iniciar fluxos de trabalho.
Leia o anúncio oficial da operação
Arcadis investe na plataforma de IA Nomic
A Arcadis anunciou um investimento e uma parceria comercial de longo prazo com a Nomic, uma plataforma de IA especializada em AEC.
A decisão veio depois de um projeto-piloto de seis meses. A intenção é integrar agentes às ferramentas já utilizadas pela empresa, incluindo Autodesk Forma e Bentley ProjectWise.
Isso mostra que grandes empresas de engenharia não estão procurando apenas um chatbot melhor. Estão buscando sistemas especializados que consigam trabalhar com seu conhecimento acumulado, padrões, documentos e processos.
Notas rápidas
Renderização com menos “engenharia de prompt”
O Sherpa lançou uma extensão para SketchUp que trabalha diretamente a partir da vista do modelo. Iluminação, pessoas, materiais e estilos são controlados pela interface, reduzindo a dependência de prompts de texto.
Para arquitetos e designers de interiores, isso aponta para ferramentas mais acessíveis e mais conectadas ao modelo original.
Conheça o Sherpa para SketchUp
IA em obra: confiar, mas conferir
A Novo Construction relatou o uso do BuildCheck Diffs em dois projetos para comparar revisões de desenhos e identificar alterações.
A ferramenta automatiza a sobreposição e sinaliza possíveis mudanças, mas os profissionais continuam revisando e descartando alertas irrelevantes. É um bom exemplo de aplicação real com supervisão humana.
Leia o caso publicado pela Construction Dive
74% dos escritórios pesquisados pelo RIBA já utilizam IA
A pesquisa de 2026 do Royal Institute of British Architects indica que 74% dos escritórios participantes utilizam IA em pelo menos parte de seus projetos.
O dado não representa automaticamente todos os arquitetos do mundo, mas mostra que, entre os respondentes britânicos, a IA deixou de ser uma experiência restrita a poucos pioneiros.
Minha leitura desta edição:
A grande mudança não é que a IA passou a produzir imagens melhores.
A mudança é que ela começa a acessar o que realmente movimenta um projeto: geometria, dados, documentos, decisões, padrões e histórico.
Isso também altera a vantagem competitiva.
As ferramentas de IA tendem a se popularizar. O diferencial de um escritório ou construtora estará cada vez mais na qualidade dos seus dados, na organização dos processos e na capacidade de transformar conhecimento técnico em fluxos que a IA possa utilizar.
Um escritório desorganizado não se torna inteligente simplesmente porque assinou uma ferramenta.
Antes de automatizar, será necessário estruturar.
E, quando as tarefas repetitivas forem executadas por agentes, o valor do profissional estará ainda mais concentrado no que exige experiência, responsabilidade, negociação, repertório e julgamento.
A IA não diminui a importância do profissional qualificado. Ela aumenta a diferença entre quem apenas utiliza ferramentas e quem sabe dirigir todo o processo.
Antes de encerrar: um convite

No dia 15 de setembro, às 20h (horário de Brasília), eu vou dar um Workshop ao vivo, online, com cerca de duas horas de duração falando sobre os usos de Inteligência Artificial em Arquitetura.
Não será uma palestra genérica sobre tendências da IA. Vou mostrar o que efetivamente utilizo em meus processos de projeto.
A inscrição custa R$ 37. O valor existe apenas para separar quem possui interesse real de quem tem somente curiosidade.
Paulo R. Mezzomo




